A massificação do uso do computador + internet nos trouxe uma série de recursos, antes de difícil acesso, e também tem proporcionado a subida de um degrau a mais no processo civilizatório. Há apenas alguns anos, criar e editar conteúdos era tarefa de uns poucos iniciados que dominassem as tecnologias da área informática: operação em nível avançado de aplicações, linguagens de programação, softwares de tratamento de imagens, editores de vídeo, etc. Era preciso superar o muro tecnológico para criar algo no computador, fosse contratando um profissional da área, ou socorrendo-se daquele amigo que manjava bem acima da média. Fosse como fosse, vencida a barreira tecnológica, apresentava-se outra, de muito mais difícil transposição: encontrar meios para veicular o conteúdo produzido.
É neste sentido que a combinação acesso ao computador + web nos possibilita o salto civilizatório aludido, porque historicamente, desde o surgimento da imprensa, para nos limitarmos a um período mais recente, o processo de comunicação sempre foi unidirecional: dos detentores dos meios de produção da informação para os consumidores de informação; dos formadores de opinião para os internalizadores de opinião formada nas crenças, valores e interesses de outrem, em outras palavras, irradiando-se do núcleo para as bordas, do centro para a periferia, do poder hegemônico para os hegemonizados. Assim, o advento da internet pôs em movimento a roda de feiticeiro que tem produzido resultados que jamais os seus idealizadores poderiam imaginar, aliás, a internet surgiu com fins militares, portanto, foi concebida originalmente para ser uma estrutura de controle e poder centralizados, mas que, à revelia dos seus primeiros idealizadores, transformou-se em um "mundo de pontas" ( na magnífica definição de Doc Searls e David Weinberg http://brockerhoff.net/blog/2003/03/10/mundo-de-pontas-world-of-ends-2/ ): "Quando Craig Burton descreve a arquitetura burra da Internet como uma
esfera oca composta inteiramente de pontas, ele está usando uma imagem
que mostra o que é mais extraordinário sobre a arquitetura da Internet:
retire o valor do centro e você viabilizará um crescimento louco de
valor nas pontas interconectadas. Porque, claro, se todas as pontas
estão conectadas, cada uma com cada uma e cada uma a todas, as pontas
deixam de ser pontos finais."
Esta plataforma livre de comunicação que é a internet tem se transformado em um espaço de manifestação cultural amplo e democrático. Ainda que algumas manifestações caracterizem-se por configurarem um retrocesso de civilidade, posto que validam certas pregações políticas de caráter nazi-fascistas, o saldo é amplamente positivo e favorável. Artistas apropriam-se cada vez mais desta plataforma para veicular suas produções, valendo-se de sítios gerenciadores de blogs, como o que ora utlizo para postar este artigo, ou de sítios de redes sociais. No mundo de pontas de Searls e Weinberger, poetas são milhões e milhões de pontas, as quais irradiam continuamente um conteúdo inédito e original, e o mais importante: o valor deste conteúdo não está no maior ou menor valor estético da obra veiculada por este ou aquele. O valor reside no fato de que pela primeira vez os criadores de arte podem veicular sua criação sem o intermédio de um "produtor", de alguem que detenha os meios de produção da informação. Portanto, a reprodução social da informação passa a ser um bem comum e coletivo, da coletividade, não mais uma propriedade privada de editores, produtores e donos de mídia.
Ainda no dizer de Serals e Weinberger: "E o que nós, pontas, fazemos? Qualquer coisa que pode ser feita por qualquer um que quer mover bits.
Notou
nosso orgulho em dizer “qualquer coisa” e “qualquer um”? Isso decorre
diretamente da arquitetura simples e burra da Internet.
Porque a
Internet é um acordo, não pertence a nenhuma pessoa ou grupo. Não às
empresas estabelecidas que operam a espinha dorsal (“backbone”). Não aos
provedores que nos fornecem conexões. Não às empresas de “hosting” que
nos alugam servidores. Não às associações de indústrias que acreditam
que sua sobrevivência é ameaçada pelo que nós outros fazemos na
Internet. Não a qualquer governo, não interessa quão sinceramente
acredita que está tentando manter seus cidadãos seguros e complacentes.
Conectar
à Internet é concordar em crescer o valor na periferia. E aí algo
realmente interessante acontece. Todos estamos igualmente conectados. A
distância não importa. Os obstáculos desaparecem e pela primeira vez a
necessidade humana de conectar pode ser realizada sem barreiras
artificiais.
A Internet nos dá os meios de nos tornarmos um mundo de pontas pela primeira vez.". E deste mundo de pontas poetas de todo o mundo se apropriam, para veicular sua arte, expressar suas visões e sentimentos do mundo. Interessante que, diferentemente da indústria cinematográfica, ou da indústria fonográfica, quer nos parecer que os editores livreiros nada perdem com a exposição que poetas e escritores em geral fazem de suas obras pela internet. Ao contrário, da torrente de quantidades de artistas novos, velhos, velhos-novos, surge, certamente, a qualidade que atenda aos critérios editorais de muitos empreendores sérios que vêm construindo seus catálogos com artistas da palavra que vêm utilizando as redes sociais para ampliar seu público leitor. Parece que entre nós, poetas, ainda se prefere o livro de papel e a consistência de um conjunto selecionado para compor a obra editada. Não sei quanto às gerações futuras, acostumadas a ler em tablets, smartphones e outros dispositivos. De qualquer forma, as imagens poéticas estão por aí, pululando na grande rede, mais acessíveis do que nunca, ajudando a construir a história pictórica destes novos velhos tempos.