A massificação do uso do computador + internet nos trouxe uma série de recursos, antes de difícil acesso, e também tem proporcionado a subida de um degrau a mais no processo civilizatório. Há apenas alguns anos, criar e editar conteúdos era tarefa de uns poucos iniciados que dominassem as tecnologias da área informática: operação em nível avançado de aplicações, linguagens de programação, softwares de tratamento de imagens, editores de vídeo, etc. Era preciso superar o muro tecnológico para criar algo no computador, fosse contratando um profissional da área, ou socorrendo-se daquele amigo que manjava bem acima da média. Fosse como fosse, vencida a barreira tecnológica, apresentava-se outra, de muito mais difícil transposição: encontrar meios para veicular o conteúdo produzido.
É neste sentido que a combinação acesso ao computador + web nos possibilita o salto civilizatório aludido, porque historicamente, desde o surgimento da imprensa, para nos limitarmos a um período mais recente, o processo de comunicação sempre foi unidirecional: dos detentores dos meios de produção da informação para os consumidores de informação; dos formadores de opinião para os internalizadores de opinião formada nas crenças, valores e interesses de outrem, em outras palavras, irradiando-se do núcleo para as bordas, do centro para a periferia, do poder hegemônico para os hegemonizados. Assim, o advento da internet pôs em movimento a roda de feiticeiro que tem produzido resultados que jamais os seus idealizadores poderiam imaginar, aliás, a internet surgiu com fins militares, portanto, foi concebida originalmente para ser uma estrutura de controle e poder centralizados, mas que, à revelia dos seus primeiros idealizadores, transformou-se em um "mundo de pontas" ( na magnífica definição de Doc Searls e David Weinberg http://brockerhoff.net/blog/2003/03/10/mundo-de-pontas-world-of-ends-2/ ): "Quando Craig Burton descreve a arquitetura burra da Internet como uma
esfera oca composta inteiramente de pontas, ele está usando uma imagem
que mostra o que é mais extraordinário sobre a arquitetura da Internet:
retire o valor do centro e você viabilizará um crescimento louco de
valor nas pontas interconectadas. Porque, claro, se todas as pontas
estão conectadas, cada uma com cada uma e cada uma a todas, as pontas
deixam de ser pontos finais."
Esta plataforma livre de comunicação que é a internet tem se transformado em um espaço de manifestação cultural amplo e democrático. Ainda que algumas manifestações caracterizem-se por configurarem um retrocesso de civilidade, posto que validam certas pregações políticas de caráter nazi-fascistas, o saldo é amplamente positivo e favorável. Artistas apropriam-se cada vez mais desta plataforma para veicular suas produções, valendo-se de sítios gerenciadores de blogs, como o que ora utlizo para postar este artigo, ou de sítios de redes sociais. No mundo de pontas de Searls e Weinberger, poetas são milhões e milhões de pontas, as quais irradiam continuamente um conteúdo inédito e original, e o mais importante: o valor deste conteúdo não está no maior ou menor valor estético da obra veiculada por este ou aquele. O valor reside no fato de que pela primeira vez os criadores de arte podem veicular sua criação sem o intermédio de um "produtor", de alguem que detenha os meios de produção da informação. Portanto, a reprodução social da informação passa a ser um bem comum e coletivo, da coletividade, não mais uma propriedade privada de editores, produtores e donos de mídia.
Ainda no dizer de Serals e Weinberger: "E o que nós, pontas, fazemos? Qualquer coisa que pode ser feita por qualquer um que quer mover bits.
Notou
nosso orgulho em dizer “qualquer coisa” e “qualquer um”? Isso decorre
diretamente da arquitetura simples e burra da Internet.
Porque a
Internet é um acordo, não pertence a nenhuma pessoa ou grupo. Não às
empresas estabelecidas que operam a espinha dorsal (“backbone”). Não aos
provedores que nos fornecem conexões. Não às empresas de “hosting” que
nos alugam servidores. Não às associações de indústrias que acreditam
que sua sobrevivência é ameaçada pelo que nós outros fazemos na
Internet. Não a qualquer governo, não interessa quão sinceramente
acredita que está tentando manter seus cidadãos seguros e complacentes.
Conectar
à Internet é concordar em crescer o valor na periferia. E aí algo
realmente interessante acontece. Todos estamos igualmente conectados. A
distância não importa. Os obstáculos desaparecem e pela primeira vez a
necessidade humana de conectar pode ser realizada sem barreiras
artificiais.
A Internet nos dá os meios de nos tornarmos um mundo de pontas pela primeira vez.". E deste mundo de pontas poetas de todo o mundo se apropriam, para veicular sua arte, expressar suas visões e sentimentos do mundo. Interessante que, diferentemente da indústria cinematográfica, ou da indústria fonográfica, quer nos parecer que os editores livreiros nada perdem com a exposição que poetas e escritores em geral fazem de suas obras pela internet. Ao contrário, da torrente de quantidades de artistas novos, velhos, velhos-novos, surge, certamente, a qualidade que atenda aos critérios editorais de muitos empreendores sérios que vêm construindo seus catálogos com artistas da palavra que vêm utilizando as redes sociais para ampliar seu público leitor. Parece que entre nós, poetas, ainda se prefere o livro de papel e a consistência de um conjunto selecionado para compor a obra editada. Não sei quanto às gerações futuras, acostumadas a ler em tablets, smartphones e outros dispositivos. De qualquer forma, as imagens poéticas estão por aí, pululando na grande rede, mais acessíveis do que nunca, ajudando a construir a história pictórica destes novos velhos tempos.
Canto Logo Me Espanto
domingo, 19 de abril de 2015
sábado, 3 de janeiro de 2015
Variantes de uma mesma dor...
Reza a lenda que certa vez Tom Jobim teria relatado, em entrevista, o caso de uma análise curiosa que um crítico literário publicara sobre sua canção "Águas de Março". Consta que na análise que fizera, o crítico afirmava que os versos "é pau / é pedra / é o fim do caminho " fariam referência aos duros tempos da ditadura militar. Na entrevista, Tom contava que na verdade os versos foram inspirados em uma caminhada que fizera durante a reforma de sua casa na chácara da região serrana fluminense, ocasião em que ele saíra andando pela propriedade e, observando que após as chuvas havia muitos paus e pedras pelo caminho acabaram por virem-lhe à mente os famosos versos. Jocosamente, Jobim teria dito que o crítico não precisava ter feito tanta ginástica intelectual, que bastava que lhe tivesse perguntado e ele diria que os versos queriam dizer aquilo mesmo que diziam: é pau, é pedra, é o fim do caminho após uma caminhada pela chácara.
Cito este exemplo, para reafirmar que, se por um lado, a análise crítica transita entre dois polos: um que irradia os elementos que expressam a representação subjetiva do autor sob determinado tema; e outro que vincula aquela representação subjetiva a certos elementos objetivos (coletivos e às vezes universais, sejam estes meramente formais, estéticos, ou de conteúdo); por outro lado, é certo também que, nem todo autor está a todo tempo consciente destas vinculações, e a meu ver os poetas cultores da linguagem estão mais próximos de controlar esta variável em seu ofício. Todavia, é a obra que constitui e revela tais vínculos e elementos. As relações que a análise estabelece devem partir do texto, e devem manter-se nele; isto é, o texto é sempre um ente auto referenciado. O que o texto da obra não sustenta é puro achismo e fará rir aos mais céticos, como os comentários jocosos de Tom Jobim fizeram rir a tantos à custa de uma crítica sem estofo. Feitas estas observações preliminares, vamos ao ensaio, esperando nós, que Edvaldo Santana não se ria ao ler estas linhas..
Variante
Atalho da Penha de senha nenhuma
Das casas pequenas se viam centenas
De sonhos profundos
lagos rasos e fundos
Reparo na linha desvio de rotina
As trilhas caipiras servindo as meninas
De sonhos profundos
lagos rasos e fundos
No Rio São Francisco navega o vapor
Que navegou no Mississipi
O Rio São Francisco deságua sua dor no Tietê
Variante da Estação do Norte
De seu Joaquim da Luz
Se eu pudesse aproximava os tempos
Adonirava o blues
Edvaldo Santana
Quando pela primeira vez ouvi Variante, de Edvaldo Santana, fiquei impressionado. Me emocionou aquela canção tão cheia de elementos poéticos que remetiam a aspectos históricos de lugares próximos tanto quanto distantes, e que no meu caso em particular referiam a vínculos afetivos entre as origens nordestinas de minha família e uma naturalidade paulistanamente difusa, característica da cidade onde nasci e tenho toda a vida vivido. Variante continua a me emocionar sempre que a ouço envolvido no devido silêncio e no contexto das reflexões nostálgicas de dores imemoriais, legado comum do processo civilizatório que inaugurou a era industrial em qualquer canto do mundo e que está gravado no dna da nossa história operária.
Abro aqui um primeiro parênteses para confidenciar que das interpretações que ouvi/presenciei, todas elas viscerais, a mais absurdamente visceral foi aquela que Edvaldo apresentou no bar do Vlad, se a memória não me falha, num evento organizado para levantar fundos para um dos amigos com sérios problemas de saúde, ou como parte dos eventos de comemoração aos 30 anos do MPA, talvez as duas coisas juntas, não me lembro com precisão. Foi uma apresentação incrível, memorável mesmo. Durante os acordes da introdução, ele contou-nos sua inspiração para a música: a homenagem ao seu pai, seu Félix, e ao irmão falecido durante a viagem retirante pelo São Francisco. O próprio Edvaldo emocionou-se demais e a platéia, comovida com a música, com aquela monumental interpretação e com a emoção do cantor e compositor, comoveu-se também e aplaudiu de pé, entusiástica, demorada e merecidamente ao grande artista. Variante, é um clássico da música brasileira, não tenho dúvidas disso, como também nunca duvidei de que escreveria sobre ela, mesmo sabendo a tremenda responsabilidade que isto implica quando se trata da obra deste artista vigoroso que mesmo consciente de que "arte é produto" no sistema de mundo-coisas que vivemos, não transige em relação à qualidade e marca próprias.
Letra de música é poesia?
Creio que seja pertinente aproveitar o pretexto da análise de Variante para tratar uma questão razoavelmente recorrente para aqueles que se envolvem com a análise crítica de textos literários, que é a de como classificar, em termos de gênero, as letras de música.
Há correntes para todos os gostos, desde aquelas que entendem que letra de música é um gênero à parte, até os que radicalmente consideram que toda letra de música é poema. No meio, estão os que entendem que letras de música são textos que se valem de elementos poéticos, mas não são poesia. Uma peça de publicidade pode ter elementos poéticos suficientes para encantar e emocionar o seu público, pode trabalhar uma metáfora, mas ainda não é poesia. Não obstante, algumas letras de músicas são definitivamente poemas. Me posiciono no grupo intermediário e trago comigo uma definição simples: se o texto sobrevive sem a música é poema. Naturalmente, estão fora da discussão os que já nascem poemas e acabam musicados.
Um bom artigo sobre esta questão é o escrito por Antonio Miranda (http://www.antoniomiranda.com.br/editorial/letra_d_musica.html) que ao discutir a mesma questão e se propondo a respondê-la termina por indagar-se: "afinal, o que é mesmo poesia?". Isto exemplifica que a rigor esta discussão só interessa mesmo aos estudiosos, passando ao largo das preocupações do público. Como estudioso auto didata, poeta e chato, me detenho sobre a questão e a meu ver, no caso específico, Variante não é simples letra de música, é poema. E digo mais: confesso que a música Variante mudou um pouco o meu conceito distintivo entre letra de música e poesia, porque embora um certo sentimento de nostalgia e revel resignação possam ser captados na leitura do poema, é inegável que a melodia, os arranjos, a voz, a interpretação do autor elevam aqueles sentimentos às alturas, amplificando os sentidos do poema.
Do ponto de vista do tema... :( vai ser chato para quem nunca gostou de análise sintática... rs rs rs...:)
Em uma primeira leitura, a temática de Variante parece ser a "do estrangeiro em sua própria terra". Mas isso não se demonstra nos primeiros versos. Ao contrário, os primeiros versos descrevem um cenário meio bucólico, quase interioriano, descrito por um narrador que tem intimidade com aquela paisagem. Alguém que conhece os caminhos, os atalhos e não precisa de palavras de passe, de segredos, de senhas, para transitar por ali:
Atalho da Penha de senha nenhuma
Das casas pequenas se viam centenas
de sonhos profundos
lagos rasos e fundos
Num sentido e intepretação literais, temos no texto uma paisagem onde as casas são pequenas. Casas de onde se podem mirar centenas de sonhos profundos. Nesta linha interpretativa, sonhos profundos são o objeto visto a partir das casas pequenas. Na longínqua aula de análise sintática do meu saudoso professor Luis: "quem vê, vê alguma coisa...". Nesta situação, centenas se refere aos sonhos profundos. São centenas de sonhos profundos sendo vistos a partir de casas pequenas. O verso seguinte, lagos rasos e fundos, parecem funcionar como um aposto de sonhos, dando-lhes duas qualidades tanto simultâneas quanto opostas: os sonhos profundos são lagos rasos, os sonhos profundos são lagos fundos. Como são centenas de sonhos, cada um pode não ter individualmente a dupla qualidade, pode ser que uns sonhos sejam lagos rasos, outros sejam lagos profundos. O que importa aqui, para além da beleza da metáfora e da antítese, é que tanto metáfora quanto antítese se alinham com o título variante: o sonho profundo pode seguir uma linha caracterizadora de ser como um lago raso, ou seguir por outra variante: e ser um lago fundo. Esta construção linguística densa e a carga semântica destes versos é rica pois plena de sentidos vários, variantes.
Assim, anoto que para esta primeira estrofe temos uma primeira linha de interpretação revelada pela análise do texto. Nesta linha, a construção imagética do poema nos mostra um cenário que não chega a ser rural, mas que não se mostra claramente urbano. O atalho da penha alude, sem afirmá-lo, a um caminho mais próximo de uma trilha do que de um percurso urbano. As casas pequenas ajudam a sinalizar para uma paisagem bucólica, mais humildes do que grandiosas, mas também não o afirmam taxativamente. Nada impede que as casas sejam pequenas em decorrência de estarem sendo observadas à considerável distância.. Desta casas pequenas se viam centenas de sonhos profundos. Então temos uma cena, ou uma tomada. Melhor, temos a fotografia. A cena ainda não está descrita. O fato de o verbo ver estar no passado ( se viam centenas) não implica necessariamente que a "narrativa" esteja no tempo pretérito. E parece mesmo que a narrativa que descreve o cenário está no presente enquanto as casas pequenas, ao serem percebidas invocam certa lembrança de se ter visto, da perspectiva delas, centenas de sonhos profundos.
É de se reparar que a estrofação dada pelo autor importa uma outra variação: das casas pequenas se viam centenas, isto é centenas de casas do tipo pequenas (pois a ausência de pontuação produz tal ambiguidade).
Esta variante interpretativa, se trilhada, nos leva, por questão lógica, a considerar que neste caso, centenas são as casas do tipo pequena e sonhos profundos são equivalentes de casas. Os sonhos são ainda "vistos", mas de forma indireta, na sua equivalência com casas.
Temos assim, no quadro visual fornecido pelo poema uma primeira tomada:
Um atalho, que se localiza, ou que tem como destino, um lugar chamado Penha, com suas casas pequenas de onde se pode avistar centenas de sonhos profundos, lagos rasos e fundos.
assim: casas pequenas --> sonhos profundos --> lagos rasos e fundos
Esta tomada tem a sua variante, na qual o que se pode ver são as centenas de casas de tipo pequenas e que são sinônimas de sonhos profundos e de lagos rasos e fundos.
portanto assim: casas pequenas = sonhos profundos = lagos rasos e fundos.
Tanto em uma como em outra linha de interpretação, lagos rasos e fundos referem-se a sonhos profundos, como equivalentes de sonhos profundos, além de ostentarem duplo sentido: como componente da paisagem descrita, e como equivalente metafórico de sonhos profundos. Assim, lagos rasos e fundos é também elemento que possui um significado "variante".
Reparo na linha desvio de rotina
As trilhas caipiras servindo as meninas
De sonhos profundos
lagos rasos e fundos
Em seguida o foco da descrição se move, como uma câmera para informar que há uma linha, e que nesta linha há um reparo e um desvio de rotina:
onde a palavra reparo adquire dois significados:
reparo = conserto; substantivo.
reparo = observo, percebo; verbo.
Então temos uma nova variante:
Se o reparo é conserto, o desvio de rotina é um desvio costumeiro, que se adota para manter o funcionamento da linha enquanto se executa o reparo. E pode ser também um desvio de rotina para os que são afetados pelo reparo na linha. Vê-se novamente uma variação no sentido da frase devidamente autorizada por ela mesma.
Na outra variante: (eu) reparo na linha, desvio de rotina ( que pode ser o desvio rotineiramente adotado para manter a linha em funcionamento; ou o ato de reparar acaba por causar um desvio da/na rotina daquele que repara, novamente o fator variante está presente.
Na mesma cena, em uma nova tomada, as trilhas caipiras servem as meninas de sonhos profundos. A construção gramatical não nos autoriza definitivamente a atribuir a que se refere a locução "de sonhos profundos", que pode ser objeto direto de servir (quem serve, serve alguma coisa) : as trilhas caipiras servindo de sonhos profundos às meninas. E na outra variante: de sonhos profundos pode ser simplesmente locução adjetiva (predicativo do objeto) de meninas, trata-se de meninas de sonhos profundos. Seguindo a dualidade semântica, lagos rasos e fundos vão se referir: a) aos sonhos profundos ( ...de sonhos profundos: lagos rasos e fundos ); e b) lagos rasos e fundos podem ser apenas um elemento da paisagem, que se compõe assim de: atalho, linha (ferroviária), trilhas e lagos .
Mas alguem poderia dizer: que importa o que o autor disse? importa é a beleza! Pois é exatamente o que estou dizendo: não importa muito o que o autor disse, mas como ( com quanta riqueza e beleza estética) ele o está dizendo. Quer dizer: Não se está buscando o conteúdo pelo conteúdo, mas o conteúdo pela forma, isto é: o conteúdo estético. E nisto, a meu ver, o poema é rico e faz de Variante, para além da música, uma obra poética magnífica.
Estrangeiro em sua própria terra
A estrofe seguinte muda completamente a cena, ao introduzir no poema um novo e inusitado elemento: o rio São Francisco e o vapor que por ele navega.
No Rio São Francisco navega o vapor
O inusitado fica por conta de que não se trata de um vapor qualquer, mas um vapor...
que navegou no Mississipi
E assim, com esta construção primorosa o poeta aproxima dois lugares distantes entre si, de países distantes entre si e esta aproximação se dá pela figura do vapor, que representa chegada ou partida, no Brasil, nos Estados Unidos ou em qualquer outro lugar. Trata-se de um elemento do imaginário universal.
O vapor que navega o São Francisco é o mesmo vapor que navegou no Mississipi. São Francisco e Mississipi são rios de grande importância econômica e representativos de excepcional riqueza cultural em seus respectivos países. Ao mesmo tempo, entretanto, a importância econômica destas regiões banhadas pelos rios se dá à custa de uma brutal exploração do homem pelo homem. A história de uma e outra região é também uma história de dor e sofrimentos. ( isto não está no poema, mas o que nos autoriza a fazer tal aproximação é que o vapor que navegou lá, navega agora aqui... e mais...
o rio São Francisco deságua sua dor no Tietê
o rio São Francisco deságua metaforicamente em São Paulo, a locomotiva do processo de industrialização brasileiro e que, em algum momento, tem a mão de obra barata importada do nordeste, via retirantes, como um dos fundamentos-base do modelo de expansão econômica da cidade, do estado e de toda a região sudeste. Um modelo que, se por um lado, acolhe os retirantes em sua saga, por outro não os livra da dor, aquela dor severina, que vem desde a sua origem social e que agora grita na solidão de ser retirante, migrante, estrangeiro em sua própria terra.
Se estamos aqui a nos socorrer de informações retiradas do contexto histórico para associar o vapor do Mississipi ao vapor do São Francisco e associar também certas características comuns entre ambos: que são elementos geográficos, econômicos e culturais de importância singular para cada país, e que ambos carregam as dores dos povos que no seu entorno vivem, etc... tal associação só é possível porque o poeta já aproximou os dois rios, os dois povos, os dois sofreres, e sobretudo as duas culturas, pois ambos são berços de cultura dos mais significativos.
Variante da Estação do Norte
De seu Joaquim da Luz
Se eu pudesse aproximava os tempos
Adonirava o blues
Para fechar o poema e deixar a todos nós embasbacados com o poder da metáfora, da síntese, o poema reune todos os elementos, antes dispersos ou insinuados: A estação do norte é antigo nome da estação do Bras, que junto com a estação da Luz formavam o complexo de chegada/partida dos migrantes de todo o país que aportavam em São Paulo. A linha variante, interligava justamente o extremo leste da cidade ao Brás. Transporte ferroviário que muitos migrantes nordestinos utilizavam pela primeira vez ao desembarcarem em São Paulo com destino aos bairros operários da zona leste, como São Miguel e Itaim. A mesma linha variante que seria utilizada depois, pela maioria deles para deslocarem-se, no dia a dia, do bairro dormitório até os locais de trabalho. Vindo de Calmon Viana, passando por Manoel Feio, São Miguel, Ermelino, Engº Goulart, Engº Gualberto, que era a estação da Penha, a linha ferroviária margeava o Tietê, com sua várzea repleta de braços de rio e de lagoas, rasas e fundas, armadilhas para aqueles que não sabiam os segredos, as senhas; perigosas para os meninos que se aventuravam em mergulhos, muitas vezes sem volta. Claro está que aquele que não tenha vivido por estas plagas não poderia recuperar estes sentimentos a partir do poema, ou da música, cito-os apenas à guisa de registro, mais para contextualizar o caleidoscópio de experiências que repousam submersas e dos quais se vale o poeta para construir suas sínteses e antíteses, suas metáforas e imagens. O fato é que o poema vai muito além das possíveis experiências vividas por este ou aquele leitor. A beleza e a força do poema reside na sua capacidade de deslocar o nosso sentido ao dizer que se pudesse aproximava os tempos, quando em verdade, ele já os aproximou na figura de um vapor que navegou no Mississipi e que agora navega no São Fransisco. Ele já aproximou as dores de quem navegava no Mississipi e que agora navega sua dor e a deságua no Tietê, na forma de gente retirada de sua terra, da sua gente, da sua origem, das suas raízes. Gente retirada de sua cultura. Por isso, se pudesse aproximava os tempos musicais e tornaria o blues em um samba à moda de Adoniram, que imortalizou o trem das onze. Assim, o poeta não pode aproximar os tempos da música, não pode adonirar o blues, não pode unificar a dor dos povos operários, sertanejos, proletários, embora já o tenha feito em seus sentidos vários.
Gilberto Braz
Ouça Variante aqui.
Variante-> Linha ferroviária que iniciando em Calmon Vianna, passa por São Miguel, Itaim e termina na Estação do Bras.
Penha -> Bairro paulistano de formação histórica originariamente conhecido por Freguesia da Penha, era local de passagem e estadia das comitivas do imperador D. Pedro
São Francisco -> rio brasileiro localizado no região nordeste com nascente no Minas Gerais e desaguando no.... sua importância econômica e cultural é tamanha que figura como elemento de destaque na cultura nacional, sendo conhecido por "Velho Chico" e cantado por artistas consagrados ou mencionados em contos, romances, poemas, filmes, obras de arte, etc...
Mississipi -> rio dos Estados Unidos que possui importância econômica e histórica. A região próxima ao Delta do Mississipi é o berço do blues.
Tietê -> importante rio paulista presente na historiografia brasileira sobretudo em função das rotas de entradas e bandeiras.
Estação do Norte -> Era o nome original da Estação Roosevelt que posteriormente veio a se chamar Estação do Bras.
Cito este exemplo, para reafirmar que, se por um lado, a análise crítica transita entre dois polos: um que irradia os elementos que expressam a representação subjetiva do autor sob determinado tema; e outro que vincula aquela representação subjetiva a certos elementos objetivos (coletivos e às vezes universais, sejam estes meramente formais, estéticos, ou de conteúdo); por outro lado, é certo também que, nem todo autor está a todo tempo consciente destas vinculações, e a meu ver os poetas cultores da linguagem estão mais próximos de controlar esta variável em seu ofício. Todavia, é a obra que constitui e revela tais vínculos e elementos. As relações que a análise estabelece devem partir do texto, e devem manter-se nele; isto é, o texto é sempre um ente auto referenciado. O que o texto da obra não sustenta é puro achismo e fará rir aos mais céticos, como os comentários jocosos de Tom Jobim fizeram rir a tantos à custa de uma crítica sem estofo. Feitas estas observações preliminares, vamos ao ensaio, esperando nós, que Edvaldo Santana não se ria ao ler estas linhas..
Variante
Atalho da Penha de senha nenhuma
Das casas pequenas se viam centenas
De sonhos profundos
lagos rasos e fundos
Reparo na linha desvio de rotina
As trilhas caipiras servindo as meninas
De sonhos profundos
lagos rasos e fundos
No Rio São Francisco navega o vapor
Que navegou no Mississipi
O Rio São Francisco deságua sua dor no Tietê
Variante da Estação do Norte
De seu Joaquim da Luz
Se eu pudesse aproximava os tempos
Adonirava o blues
Edvaldo Santana
Quando pela primeira vez ouvi Variante, de Edvaldo Santana, fiquei impressionado. Me emocionou aquela canção tão cheia de elementos poéticos que remetiam a aspectos históricos de lugares próximos tanto quanto distantes, e que no meu caso em particular referiam a vínculos afetivos entre as origens nordestinas de minha família e uma naturalidade paulistanamente difusa, característica da cidade onde nasci e tenho toda a vida vivido. Variante continua a me emocionar sempre que a ouço envolvido no devido silêncio e no contexto das reflexões nostálgicas de dores imemoriais, legado comum do processo civilizatório que inaugurou a era industrial em qualquer canto do mundo e que está gravado no dna da nossa história operária.
Abro aqui um primeiro parênteses para confidenciar que das interpretações que ouvi/presenciei, todas elas viscerais, a mais absurdamente visceral foi aquela que Edvaldo apresentou no bar do Vlad, se a memória não me falha, num evento organizado para levantar fundos para um dos amigos com sérios problemas de saúde, ou como parte dos eventos de comemoração aos 30 anos do MPA, talvez as duas coisas juntas, não me lembro com precisão. Foi uma apresentação incrível, memorável mesmo. Durante os acordes da introdução, ele contou-nos sua inspiração para a música: a homenagem ao seu pai, seu Félix, e ao irmão falecido durante a viagem retirante pelo São Francisco. O próprio Edvaldo emocionou-se demais e a platéia, comovida com a música, com aquela monumental interpretação e com a emoção do cantor e compositor, comoveu-se também e aplaudiu de pé, entusiástica, demorada e merecidamente ao grande artista. Variante, é um clássico da música brasileira, não tenho dúvidas disso, como também nunca duvidei de que escreveria sobre ela, mesmo sabendo a tremenda responsabilidade que isto implica quando se trata da obra deste artista vigoroso que mesmo consciente de que "arte é produto" no sistema de mundo-coisas que vivemos, não transige em relação à qualidade e marca próprias.
Letra de música é poesia?
Creio que seja pertinente aproveitar o pretexto da análise de Variante para tratar uma questão razoavelmente recorrente para aqueles que se envolvem com a análise crítica de textos literários, que é a de como classificar, em termos de gênero, as letras de música.
Há correntes para todos os gostos, desde aquelas que entendem que letra de música é um gênero à parte, até os que radicalmente consideram que toda letra de música é poema. No meio, estão os que entendem que letras de música são textos que se valem de elementos poéticos, mas não são poesia. Uma peça de publicidade pode ter elementos poéticos suficientes para encantar e emocionar o seu público, pode trabalhar uma metáfora, mas ainda não é poesia. Não obstante, algumas letras de músicas são definitivamente poemas. Me posiciono no grupo intermediário e trago comigo uma definição simples: se o texto sobrevive sem a música é poema. Naturalmente, estão fora da discussão os que já nascem poemas e acabam musicados.
Um bom artigo sobre esta questão é o escrito por Antonio Miranda (http://www.antoniomiranda.com.br/editorial/letra_d_musica.html) que ao discutir a mesma questão e se propondo a respondê-la termina por indagar-se: "afinal, o que é mesmo poesia?". Isto exemplifica que a rigor esta discussão só interessa mesmo aos estudiosos, passando ao largo das preocupações do público. Como estudioso auto didata, poeta e chato, me detenho sobre a questão e a meu ver, no caso específico, Variante não é simples letra de música, é poema. E digo mais: confesso que a música Variante mudou um pouco o meu conceito distintivo entre letra de música e poesia, porque embora um certo sentimento de nostalgia e revel resignação possam ser captados na leitura do poema, é inegável que a melodia, os arranjos, a voz, a interpretação do autor elevam aqueles sentimentos às alturas, amplificando os sentidos do poema.
Do ponto de vista do tema... :( vai ser chato para quem nunca gostou de análise sintática... rs rs rs...:)
Em uma primeira leitura, a temática de Variante parece ser a "do estrangeiro em sua própria terra". Mas isso não se demonstra nos primeiros versos. Ao contrário, os primeiros versos descrevem um cenário meio bucólico, quase interioriano, descrito por um narrador que tem intimidade com aquela paisagem. Alguém que conhece os caminhos, os atalhos e não precisa de palavras de passe, de segredos, de senhas, para transitar por ali:
Atalho da Penha de senha nenhuma
Das casas pequenas se viam centenas
de sonhos profundos
lagos rasos e fundos
Num sentido e intepretação literais, temos no texto uma paisagem onde as casas são pequenas. Casas de onde se podem mirar centenas de sonhos profundos. Nesta linha interpretativa, sonhos profundos são o objeto visto a partir das casas pequenas. Na longínqua aula de análise sintática do meu saudoso professor Luis: "quem vê, vê alguma coisa...". Nesta situação, centenas se refere aos sonhos profundos. São centenas de sonhos profundos sendo vistos a partir de casas pequenas. O verso seguinte, lagos rasos e fundos, parecem funcionar como um aposto de sonhos, dando-lhes duas qualidades tanto simultâneas quanto opostas: os sonhos profundos são lagos rasos, os sonhos profundos são lagos fundos. Como são centenas de sonhos, cada um pode não ter individualmente a dupla qualidade, pode ser que uns sonhos sejam lagos rasos, outros sejam lagos profundos. O que importa aqui, para além da beleza da metáfora e da antítese, é que tanto metáfora quanto antítese se alinham com o título variante: o sonho profundo pode seguir uma linha caracterizadora de ser como um lago raso, ou seguir por outra variante: e ser um lago fundo. Esta construção linguística densa e a carga semântica destes versos é rica pois plena de sentidos vários, variantes.
Assim, anoto que para esta primeira estrofe temos uma primeira linha de interpretação revelada pela análise do texto. Nesta linha, a construção imagética do poema nos mostra um cenário que não chega a ser rural, mas que não se mostra claramente urbano. O atalho da penha alude, sem afirmá-lo, a um caminho mais próximo de uma trilha do que de um percurso urbano. As casas pequenas ajudam a sinalizar para uma paisagem bucólica, mais humildes do que grandiosas, mas também não o afirmam taxativamente. Nada impede que as casas sejam pequenas em decorrência de estarem sendo observadas à considerável distância.. Desta casas pequenas se viam centenas de sonhos profundos. Então temos uma cena, ou uma tomada. Melhor, temos a fotografia. A cena ainda não está descrita. O fato de o verbo ver estar no passado ( se viam centenas) não implica necessariamente que a "narrativa" esteja no tempo pretérito. E parece mesmo que a narrativa que descreve o cenário está no presente enquanto as casas pequenas, ao serem percebidas invocam certa lembrança de se ter visto, da perspectiva delas, centenas de sonhos profundos.
É de se reparar que a estrofação dada pelo autor importa uma outra variação: das casas pequenas se viam centenas, isto é centenas de casas do tipo pequenas (pois a ausência de pontuação produz tal ambiguidade).
Esta variante interpretativa, se trilhada, nos leva, por questão lógica, a considerar que neste caso, centenas são as casas do tipo pequena e sonhos profundos são equivalentes de casas. Os sonhos são ainda "vistos", mas de forma indireta, na sua equivalência com casas.
Temos assim, no quadro visual fornecido pelo poema uma primeira tomada:
Um atalho, que se localiza, ou que tem como destino, um lugar chamado Penha, com suas casas pequenas de onde se pode avistar centenas de sonhos profundos, lagos rasos e fundos.
assim: casas pequenas --> sonhos profundos --> lagos rasos e fundos
Esta tomada tem a sua variante, na qual o que se pode ver são as centenas de casas de tipo pequenas e que são sinônimas de sonhos profundos e de lagos rasos e fundos.
portanto assim: casas pequenas = sonhos profundos = lagos rasos e fundos.
Tanto em uma como em outra linha de interpretação, lagos rasos e fundos referem-se a sonhos profundos, como equivalentes de sonhos profundos, além de ostentarem duplo sentido: como componente da paisagem descrita, e como equivalente metafórico de sonhos profundos. Assim, lagos rasos e fundos é também elemento que possui um significado "variante".
Reparo na linha desvio de rotina
As trilhas caipiras servindo as meninas
De sonhos profundos
lagos rasos e fundos
Em seguida o foco da descrição se move, como uma câmera para informar que há uma linha, e que nesta linha há um reparo e um desvio de rotina:
onde a palavra reparo adquire dois significados:
reparo = conserto; substantivo.
reparo = observo, percebo; verbo.
Então temos uma nova variante:
Se o reparo é conserto, o desvio de rotina é um desvio costumeiro, que se adota para manter o funcionamento da linha enquanto se executa o reparo. E pode ser também um desvio de rotina para os que são afetados pelo reparo na linha. Vê-se novamente uma variação no sentido da frase devidamente autorizada por ela mesma.
Na outra variante: (eu) reparo na linha, desvio de rotina ( que pode ser o desvio rotineiramente adotado para manter a linha em funcionamento; ou o ato de reparar acaba por causar um desvio da/na rotina daquele que repara, novamente o fator variante está presente.
Na mesma cena, em uma nova tomada, as trilhas caipiras servem as meninas de sonhos profundos. A construção gramatical não nos autoriza definitivamente a atribuir a que se refere a locução "de sonhos profundos", que pode ser objeto direto de servir (quem serve, serve alguma coisa) : as trilhas caipiras servindo de sonhos profundos às meninas. E na outra variante: de sonhos profundos pode ser simplesmente locução adjetiva (predicativo do objeto) de meninas, trata-se de meninas de sonhos profundos. Seguindo a dualidade semântica, lagos rasos e fundos vão se referir: a) aos sonhos profundos ( ...de sonhos profundos: lagos rasos e fundos ); e b) lagos rasos e fundos podem ser apenas um elemento da paisagem, que se compõe assim de: atalho, linha (ferroviária), trilhas e lagos .
Mas alguem poderia dizer: que importa o que o autor disse? importa é a beleza! Pois é exatamente o que estou dizendo: não importa muito o que o autor disse, mas como ( com quanta riqueza e beleza estética) ele o está dizendo. Quer dizer: Não se está buscando o conteúdo pelo conteúdo, mas o conteúdo pela forma, isto é: o conteúdo estético. E nisto, a meu ver, o poema é rico e faz de Variante, para além da música, uma obra poética magnífica.
Estrangeiro em sua própria terra
A estrofe seguinte muda completamente a cena, ao introduzir no poema um novo e inusitado elemento: o rio São Francisco e o vapor que por ele navega.
No Rio São Francisco navega o vapor
O inusitado fica por conta de que não se trata de um vapor qualquer, mas um vapor...
que navegou no Mississipi
E assim, com esta construção primorosa o poeta aproxima dois lugares distantes entre si, de países distantes entre si e esta aproximação se dá pela figura do vapor, que representa chegada ou partida, no Brasil, nos Estados Unidos ou em qualquer outro lugar. Trata-se de um elemento do imaginário universal.
O vapor que navega o São Francisco é o mesmo vapor que navegou no Mississipi. São Francisco e Mississipi são rios de grande importância econômica e representativos de excepcional riqueza cultural em seus respectivos países. Ao mesmo tempo, entretanto, a importância econômica destas regiões banhadas pelos rios se dá à custa de uma brutal exploração do homem pelo homem. A história de uma e outra região é também uma história de dor e sofrimentos. ( isto não está no poema, mas o que nos autoriza a fazer tal aproximação é que o vapor que navegou lá, navega agora aqui... e mais...
o rio São Francisco deságua sua dor no Tietê
o rio São Francisco deságua metaforicamente em São Paulo, a locomotiva do processo de industrialização brasileiro e que, em algum momento, tem a mão de obra barata importada do nordeste, via retirantes, como um dos fundamentos-base do modelo de expansão econômica da cidade, do estado e de toda a região sudeste. Um modelo que, se por um lado, acolhe os retirantes em sua saga, por outro não os livra da dor, aquela dor severina, que vem desde a sua origem social e que agora grita na solidão de ser retirante, migrante, estrangeiro em sua própria terra.
Se estamos aqui a nos socorrer de informações retiradas do contexto histórico para associar o vapor do Mississipi ao vapor do São Francisco e associar também certas características comuns entre ambos: que são elementos geográficos, econômicos e culturais de importância singular para cada país, e que ambos carregam as dores dos povos que no seu entorno vivem, etc... tal associação só é possível porque o poeta já aproximou os dois rios, os dois povos, os dois sofreres, e sobretudo as duas culturas, pois ambos são berços de cultura dos mais significativos.
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| Rede ferroviária - linha Santos-Jundiaí e Variante |
De seu Joaquim da Luz
Se eu pudesse aproximava os tempos
Adonirava o blues
Para fechar o poema e deixar a todos nós embasbacados com o poder da metáfora, da síntese, o poema reune todos os elementos, antes dispersos ou insinuados: A estação do norte é antigo nome da estação do Bras, que junto com a estação da Luz formavam o complexo de chegada/partida dos migrantes de todo o país que aportavam em São Paulo. A linha variante, interligava justamente o extremo leste da cidade ao Brás. Transporte ferroviário que muitos migrantes nordestinos utilizavam pela primeira vez ao desembarcarem em São Paulo com destino aos bairros operários da zona leste, como São Miguel e Itaim. A mesma linha variante que seria utilizada depois, pela maioria deles para deslocarem-se, no dia a dia, do bairro dormitório até os locais de trabalho. Vindo de Calmon Viana, passando por Manoel Feio, São Miguel, Ermelino, Engº Goulart, Engº Gualberto, que era a estação da Penha, a linha ferroviária margeava o Tietê, com sua várzea repleta de braços de rio e de lagoas, rasas e fundas, armadilhas para aqueles que não sabiam os segredos, as senhas; perigosas para os meninos que se aventuravam em mergulhos, muitas vezes sem volta. Claro está que aquele que não tenha vivido por estas plagas não poderia recuperar estes sentimentos a partir do poema, ou da música, cito-os apenas à guisa de registro, mais para contextualizar o caleidoscópio de experiências que repousam submersas e dos quais se vale o poeta para construir suas sínteses e antíteses, suas metáforas e imagens. O fato é que o poema vai muito além das possíveis experiências vividas por este ou aquele leitor. A beleza e a força do poema reside na sua capacidade de deslocar o nosso sentido ao dizer que se pudesse aproximava os tempos, quando em verdade, ele já os aproximou na figura de um vapor que navegou no Mississipi e que agora navega no São Fransisco. Ele já aproximou as dores de quem navegava no Mississipi e que agora navega sua dor e a deságua no Tietê, na forma de gente retirada de sua terra, da sua gente, da sua origem, das suas raízes. Gente retirada de sua cultura. Por isso, se pudesse aproximava os tempos musicais e tornaria o blues em um samba à moda de Adoniram, que imortalizou o trem das onze. Assim, o poeta não pode aproximar os tempos da música, não pode adonirar o blues, não pode unificar a dor dos povos operários, sertanejos, proletários, embora já o tenha feito em seus sentidos vários.
Gilberto Braz
Ouça Variante aqui.
Variante-> Linha ferroviária que iniciando em Calmon Vianna, passa por São Miguel, Itaim e termina na Estação do Bras.
Penha -> Bairro paulistano de formação histórica originariamente conhecido por Freguesia da Penha, era local de passagem e estadia das comitivas do imperador D. Pedro
São Francisco -> rio brasileiro localizado no região nordeste com nascente no Minas Gerais e desaguando no.... sua importância econômica e cultural é tamanha que figura como elemento de destaque na cultura nacional, sendo conhecido por "Velho Chico" e cantado por artistas consagrados ou mencionados em contos, romances, poemas, filmes, obras de arte, etc...
Mississipi -> rio dos Estados Unidos que possui importância econômica e histórica. A região próxima ao Delta do Mississipi é o berço do blues.
Tietê -> importante rio paulista presente na historiografia brasileira sobretudo em função das rotas de entradas e bandeiras.
Estação do Norte -> Era o nome original da Estação Roosevelt que posteriormente veio a se chamar Estação do Bras.
domingo, 7 de dezembro de 2014
Muitos caminhos, um método
I.
Neste espaço farei reflexões sobre obras literárias de alguns autores, os quais tenho lido nos últimos meses. Antes de mais nada faz-se necessário distinguir entre crítica literária e teoria literária, de maneira que se tenha claro o escopo de minhas análises, seus limites e propósitos.
Teoria Literária é ciência, e como tal busca encontrar padrões que definam algum modelo reconhecível. Não está, ou não deveria estar, interessada em elaborar juízos de valor: um texto, "considerado ruim", do ponto de vista da crítica, pode ser objeto de estudo, tanto quanto um clássico, embora não faça muito sentido perder-se tempo com o que não vai permanecer. Ou dito de forma menos rude: a Teoria Literária se ocupa mais do que permaneceu ou do que tende a permanecer, pela razão simples de que, sendo teoria da Literatura, precisa de certa estabilidade no objeto que estuda, de um distanciamento que, muitas vezes, só o tempo provê de modo eficaz e desinteressado.
Embora a neutralidade científica seja apenas uma tese por provar-se, consideremos que ela seja ideologicamente possível e socialmente desejável. E que no caso da Teoria da Literatura uma das formas de expressão de dita neutralidade dê-se pela ausência de julgamento moral ou ideológico; digamos que ela se atenha à descrição e tentativa de explicação do fenômeno estético. É o velho e batido "importa menos o que o autor disse, e mais como ele o disse". Talvez possamos falar de uma investigação teleológica, algo do tipo "o que o autor quis ao dizer algo". Se quisermos adotar o pressuposto de que não é possível a neutralidade, então tenhamos em mente que a Teoria da Literatura quando julga, o faz utilizando-se das espécies de juízo descritos por Kant, quais sejam: o juízo determinante e o juízo reflexionante: o primeiro buscando em modelos universais os padrões que determinam a ação em particular; o segundo, partindo da representação particular, dada pela obra, busca representação universal que a reflita. Ressalte-se que, seja de uma ou de outra maneira, o que fundamenta o juízo deve estar contido na obra. Ou, nos termos de mais um chavão da teoria: a obra deve dizer o que ela diz. É por estas águas dificeis que navega o barco da Teoria Literária, entre o oceano de objetividades ( o universal ) e o rio de subjetividade ( o particular ) representado na obra de arte. Separar e identificar estas águas e o que elas expressam em sua (pro)fusão, nisto reside o fascínio da Teoria da Literatura. É justamente por isso que ela se debruça, quase sempre, sobre o conjunto de uma obra, ou sobre a obra específica num contexto conjuntural de uma época, porque precisa encontrar padrões e elementos da objetividade ( universais ) para neles explicar os padrões subjetivos representativos de um autor ou obra, e assim, por ciência, compartimenta, agrupa e classifica as obras, e por fim nomeia as escolas literárias.
Entrementes, com ou sem fundamentos filosóficos ou científicos, o Homem é um animal que reúne dados, avalia e julga o tempo todo. E não seria diferente com as obras literárias e seus autores, venham elas a permanecer ou não. De maneira que tal espaço não poderia ficar vago. E é aqui que entra a crítica literária. Portanto, embora alguns autores assim não o vejam, a crítica literária não é um capricho do crítico, mas antes uma resposta da sociedade a certa necessidade de imprimir qualificativos, de opinar, de construir um conceito inicial com algum fundamento de validade até que a ciência o confirme, ou negue-o. Na nossa cultura ocidentalizada e de cânones, a crítica literária é quase a sala de espera da Teoria Literária.
Uma crítica, queira ou não o crítico explicitá-lo, possui um aspecto de valoração, na medida que não apenas descreve os traços característicos de uma obra, o arsenal de recursos técnicos utilizados pelo autor, mas também busca sinalizar a função destes recursos na composição do trabalho em análise, examinando a arquitetura da obra literária, e como a forma expressa, ou não, o seu conteúdo; como o autor utiliza a forma para cumprir com suas ( e quais são as suas ) intenções (neste ponto, a crítica se aproxima bastante da Teoria, porque em geral faz uso dos instrumentos desenvolvidos pela Teoria).
De fato, por mais que esteja munido de instrumentos de análise técnica fornecidos em geral pela Teoria Literária, a crítica continua sendo opinião; e por isso, impregnada dos valores estéticos e, porque não, ideológicos, que o crítico carrega em si. A crítica é pois, um olhar imediato sobre uma obra em particular e não tem compromisso com uma verdade científica, sequer com qualquer historicidade, embora possa fazer uso delas a seu critério. Ela emite um juizo que não é nem determinante nem reflexionante, é um juízo segundo o crítico e que, muitas vezes pode estar permeado das conveniências do mercado. Por isso os autores, ou o público, para refutar a crítica não precisam elaborar nenhuma nova teoria, basta repelí-la apondo um simples e rotundo "não concordo!" sobre ela.
Bem, falando assim, parece que as idéias até aqui expostas estão em contradição: a crítica é necessária, mas ao mesmo tempo pode ser repelida sem qualquer necessidade de elaboração de teoria ou mesmo de uma réplica. Isto é: a crítica assim repelida torna-se desnecessária. Mas é uma contradição apenas aparente. Conquanto um texto literário pode não ter nenhum valor estético aos olhos do crítico, sua crítica pode ter valor algum aos olhos do público. Todavia, da mesma forma que o cientista busca a neutralidade, ainda que como ideal; o crítico busca a credibilidade. A crítica necessária é pois aquela dotada da necessária credibilidade. É notar que ambos, autor e crítico estão, em tese, à procura da aprovação do público à medida que ambos escrevem para o público. Neste sentido, autor e crítico; obra e crítica, se igualam, pois ambos serão julgados pelo leitor, aquele que tem a palavra final.
Ao analisar como o autor construiu o seu trabalho artístico, como exerceu o seu ofício, não resta dúvida que, como já dito, uma carga de valoração se aplica. Não aquela valoração mercantilizada das críticas de certos veículos mediáticos, que se arrogam a presunção de atribuir rótulos de "ótimo", "bom" ou "ruim" conforme assim o expressem o seu departamento comercial e sua carteira publicitária; nem tampouco a valoração dada por uma espécie de crítica academicista que, sustentando-se na ( e fazendo um uso inadequado da) teoria da literatura, tenta encaixar uma obra em seus padrões e modelos axiomáticos para então proclamar: esta tem valor, porque se encaixa no modelo A, aquela não tem valor porque não se enquadra em nenhum modelo válido,. Não se trata de negar a Teoria Literária, mas apenas de não confundir as coisas.
Um bom crítico poderá sê-lo com base apenas na sua cultura geral, no seu conhecimento empírico, na "sensibilidade" para apreender o contexto em que a obra se insere e na sua capacidade de perceber polifonias e polissemias, sem no entanto expressá-las por seus "nomes técnicos" em seu texto crítico. Enfim, um bom crítico entende a obra no diálogo que ela trava com o seu tempo. Da mesma forma que, reconhecer recursos da técnica e da estilística, descrevê-los e nomeá-los não garante uma boa crítica. Sendo assim, exercitar a crítica não é algo que se possa fazer com tranquilidade. É uma situação complexa, de risco para aqueles que a tratam com seriedade.
A função crítica tem dupla interface: se por um lado, dialoga com a obra, percorrendo-a em busca de seus contornos e conteúdos; por outro lado deve conversar com seu tempo, na tentativa de buscar os balizamentos mais adequados para a compreensão do trabalho alheio sobre o qual se debruça, a fim de não incorrer no risco de ser injusta, julgando de um modo aquilo que se encaixa nos gostos e preferências do crítico, e de outro modo o que daqueles gostos e preferências se distancia. Focar no aspecto descritivo, pode ajudar a evitar o risco, mas o custo pode ser o de haver escrito uma resenha puramente descritiva, não uma crítica. Assim vamos, antes da crítica, delineando um "modelo" crítico que apresente um mínimo de pressupostos conceituais, extraídos da Teoria Literária ou não, que, mesmo diante de gostos e preferências particulares, saiba dialogar com as diversas correntes estéticas e assim entender como o publico ( sim, o público e somente ele) legitima aquelas tendências para o seu bem fruir.
Há autores que não se importam com a crítica, há aqueles que se importam apenas com o que dizem alguns críticos que eles reputam capazes de exercer a crítica com a necessária competência; outros há que não lêem críticas em absoluto, e há ainda aqueles que lêem apenas as críticas dos críticos que lhes são favoráveis. São todas estas posições válidas, porque a obra não necessita da mediação da crítica para estabelecer uma relação com o leitor, muito embora, em alguns casos, tal mediação exista, porque há leitores que conferem ao crítico credibilidade suficiente para orientar-lhe as leituras.
Teoria Literária é ciência, e como tal busca encontrar padrões que definam algum modelo reconhecível. Não está, ou não deveria estar, interessada em elaborar juízos de valor: um texto, "considerado ruim", do ponto de vista da crítica, pode ser objeto de estudo, tanto quanto um clássico, embora não faça muito sentido perder-se tempo com o que não vai permanecer. Ou dito de forma menos rude: a Teoria Literária se ocupa mais do que permaneceu ou do que tende a permanecer, pela razão simples de que, sendo teoria da Literatura, precisa de certa estabilidade no objeto que estuda, de um distanciamento que, muitas vezes, só o tempo provê de modo eficaz e desinteressado.
Embora a neutralidade científica seja apenas uma tese por provar-se, consideremos que ela seja ideologicamente possível e socialmente desejável. E que no caso da Teoria da Literatura uma das formas de expressão de dita neutralidade dê-se pela ausência de julgamento moral ou ideológico; digamos que ela se atenha à descrição e tentativa de explicação do fenômeno estético. É o velho e batido "importa menos o que o autor disse, e mais como ele o disse". Talvez possamos falar de uma investigação teleológica, algo do tipo "o que o autor quis ao dizer algo". Se quisermos adotar o pressuposto de que não é possível a neutralidade, então tenhamos em mente que a Teoria da Literatura quando julga, o faz utilizando-se das espécies de juízo descritos por Kant, quais sejam: o juízo determinante e o juízo reflexionante: o primeiro buscando em modelos universais os padrões que determinam a ação em particular; o segundo, partindo da representação particular, dada pela obra, busca representação universal que a reflita. Ressalte-se que, seja de uma ou de outra maneira, o que fundamenta o juízo deve estar contido na obra. Ou, nos termos de mais um chavão da teoria: a obra deve dizer o que ela diz. É por estas águas dificeis que navega o barco da Teoria Literária, entre o oceano de objetividades ( o universal ) e o rio de subjetividade ( o particular ) representado na obra de arte. Separar e identificar estas águas e o que elas expressam em sua (pro)fusão, nisto reside o fascínio da Teoria da Literatura. É justamente por isso que ela se debruça, quase sempre, sobre o conjunto de uma obra, ou sobre a obra específica num contexto conjuntural de uma época, porque precisa encontrar padrões e elementos da objetividade ( universais ) para neles explicar os padrões subjetivos representativos de um autor ou obra, e assim, por ciência, compartimenta, agrupa e classifica as obras, e por fim nomeia as escolas literárias.
Entrementes, com ou sem fundamentos filosóficos ou científicos, o Homem é um animal que reúne dados, avalia e julga o tempo todo. E não seria diferente com as obras literárias e seus autores, venham elas a permanecer ou não. De maneira que tal espaço não poderia ficar vago. E é aqui que entra a crítica literária. Portanto, embora alguns autores assim não o vejam, a crítica literária não é um capricho do crítico, mas antes uma resposta da sociedade a certa necessidade de imprimir qualificativos, de opinar, de construir um conceito inicial com algum fundamento de validade até que a ciência o confirme, ou negue-o. Na nossa cultura ocidentalizada e de cânones, a crítica literária é quase a sala de espera da Teoria Literária.
II
Uma crítica, queira ou não o crítico explicitá-lo, possui um aspecto de valoração, na medida que não apenas descreve os traços característicos de uma obra, o arsenal de recursos técnicos utilizados pelo autor, mas também busca sinalizar a função destes recursos na composição do trabalho em análise, examinando a arquitetura da obra literária, e como a forma expressa, ou não, o seu conteúdo; como o autor utiliza a forma para cumprir com suas ( e quais são as suas ) intenções (neste ponto, a crítica se aproxima bastante da Teoria, porque em geral faz uso dos instrumentos desenvolvidos pela Teoria).
De fato, por mais que esteja munido de instrumentos de análise técnica fornecidos em geral pela Teoria Literária, a crítica continua sendo opinião; e por isso, impregnada dos valores estéticos e, porque não, ideológicos, que o crítico carrega em si. A crítica é pois, um olhar imediato sobre uma obra em particular e não tem compromisso com uma verdade científica, sequer com qualquer historicidade, embora possa fazer uso delas a seu critério. Ela emite um juizo que não é nem determinante nem reflexionante, é um juízo segundo o crítico e que, muitas vezes pode estar permeado das conveniências do mercado. Por isso os autores, ou o público, para refutar a crítica não precisam elaborar nenhuma nova teoria, basta repelí-la apondo um simples e rotundo "não concordo!" sobre ela.
Bem, falando assim, parece que as idéias até aqui expostas estão em contradição: a crítica é necessária, mas ao mesmo tempo pode ser repelida sem qualquer necessidade de elaboração de teoria ou mesmo de uma réplica. Isto é: a crítica assim repelida torna-se desnecessária. Mas é uma contradição apenas aparente. Conquanto um texto literário pode não ter nenhum valor estético aos olhos do crítico, sua crítica pode ter valor algum aos olhos do público. Todavia, da mesma forma que o cientista busca a neutralidade, ainda que como ideal; o crítico busca a credibilidade. A crítica necessária é pois aquela dotada da necessária credibilidade. É notar que ambos, autor e crítico estão, em tese, à procura da aprovação do público à medida que ambos escrevem para o público. Neste sentido, autor e crítico; obra e crítica, se igualam, pois ambos serão julgados pelo leitor, aquele que tem a palavra final.
III
Ao analisar como o autor construiu o seu trabalho artístico, como exerceu o seu ofício, não resta dúvida que, como já dito, uma carga de valoração se aplica. Não aquela valoração mercantilizada das críticas de certos veículos mediáticos, que se arrogam a presunção de atribuir rótulos de "ótimo", "bom" ou "ruim" conforme assim o expressem o seu departamento comercial e sua carteira publicitária; nem tampouco a valoração dada por uma espécie de crítica academicista que, sustentando-se na ( e fazendo um uso inadequado da) teoria da literatura, tenta encaixar uma obra em seus padrões e modelos axiomáticos para então proclamar: esta tem valor, porque se encaixa no modelo A, aquela não tem valor porque não se enquadra em nenhum modelo válido,. Não se trata de negar a Teoria Literária, mas apenas de não confundir as coisas.
Um bom crítico poderá sê-lo com base apenas na sua cultura geral, no seu conhecimento empírico, na "sensibilidade" para apreender o contexto em que a obra se insere e na sua capacidade de perceber polifonias e polissemias, sem no entanto expressá-las por seus "nomes técnicos" em seu texto crítico. Enfim, um bom crítico entende a obra no diálogo que ela trava com o seu tempo. Da mesma forma que, reconhecer recursos da técnica e da estilística, descrevê-los e nomeá-los não garante uma boa crítica. Sendo assim, exercitar a crítica não é algo que se possa fazer com tranquilidade. É uma situação complexa, de risco para aqueles que a tratam com seriedade.
A função crítica tem dupla interface: se por um lado, dialoga com a obra, percorrendo-a em busca de seus contornos e conteúdos; por outro lado deve conversar com seu tempo, na tentativa de buscar os balizamentos mais adequados para a compreensão do trabalho alheio sobre o qual se debruça, a fim de não incorrer no risco de ser injusta, julgando de um modo aquilo que se encaixa nos gostos e preferências do crítico, e de outro modo o que daqueles gostos e preferências se distancia. Focar no aspecto descritivo, pode ajudar a evitar o risco, mas o custo pode ser o de haver escrito uma resenha puramente descritiva, não uma crítica. Assim vamos, antes da crítica, delineando um "modelo" crítico que apresente um mínimo de pressupostos conceituais, extraídos da Teoria Literária ou não, que, mesmo diante de gostos e preferências particulares, saiba dialogar com as diversas correntes estéticas e assim entender como o publico ( sim, o público e somente ele) legitima aquelas tendências para o seu bem fruir.
IV
Há autores que não se importam com a crítica, há aqueles que se importam apenas com o que dizem alguns críticos que eles reputam capazes de exercer a crítica com a necessária competência; outros há que não lêem críticas em absoluto, e há ainda aqueles que lêem apenas as críticas dos críticos que lhes são favoráveis. São todas estas posições válidas, porque a obra não necessita da mediação da crítica para estabelecer uma relação com o leitor, muito embora, em alguns casos, tal mediação exista, porque há leitores que conferem ao crítico credibilidade suficiente para orientar-lhe as leituras.
Embora o autor nem sempre peça aos críticos que lhes critiquem a obra, o fato de ela ser destinada ao público já autoriza o crítico a colocar seu olhar sobre ela. O crítico é antes de tudo um leitor e como leitor possui também a sua impressão, boa ou má, sobre o trabalho que aprecia. Todavia, duas características fundamentais distinguem a leitura do crítico da leitura do leitor comum: a primeira, presume-se , o crítico lê a obra e a compara tendo como guia certos padrões da objetividade que ele elegeu como preferenciais. O crítico toma a obra na perspectiva de um certo repertório já percorrido; enquanto o leitor, ainda que tenha um repertório mais rico, toma a leitura da obra guiado pela subjetividade que o autor lhe imprime. Neste sentido, enquanto o crítico analisa, o leitor frui; enquanto o crítico ( como o teórico ) busca o universal que envolve a obra; o leitor se aprofunda no particular, envolvido por ela. A segunda, que decorre da primeira, é que o juizo do crítico, não se constrói sem coerente fundamentação, enquanto o juizo do leitor, por basear-se na relação de subjetividades entre a obra e a sua percepção do belo, funda-se basicamente na experiência de prazer.
Sem dúvida leitores há que, sem compromisso com a crítica, mas dotados de vasto repertório e referenciais teóricos, fazem da primeira ou mesmo das várias releituras um tipo de fruição especial, cujo prazer reside justamente em travar com a obra a experiência de buscar nela, conscientemente, elementos que enriqueçam sua percepção do belo. Assim é que, entre o crítico, o leitor crítico e o leitor mais desinteressado, que busca da obra apenas o seu primeiro plano, existe um largo espectro de leitores, e que ser reune sob o singelo nome de público, de tal modo que além das várias correntes e tendências estéticas, consolidadas ou em formação, há que se considerar o público tomado justamente na dimensão e na intangibilidade do espectro que o forma.
Finalizando, porque uma obra literária pode ou não dirigir-se ao mais amplo espectro do público, a função crítica deve também acompanhá-la. Esta é, no meu modo de ver, uma forma possível para resolver o problema que surge quando há manifesta assimetria entre o que propõe a obra e a expectativa dos públicos, entre estes a crítica. Exemplificando: há uma diferença de propostas muito relevantes entre uma narrativa de um autor mediano e uma narrativa de um Graciliano Ramos. Talvez o primeiro se proponha a contar um boa estória, com um bom enredo e personagens bem construidos e verossímeis. Enquanto as obras de Graciliano demonstram, por si só, que ele não quer apenas contar uma estória, mas que a estória conte-se por si mesma, de tal forma que ele atinge tanto o público que busca apenas a estória, o primeiro plano, como também, e neste caso principalmente se dirige aqueles leitores atentos às outras dimensões da narrativa.
Bem, finalizei e usei como exemplo a narrativa, mas quero avisar que o foco de minhas reflexões críticas será a poesia de autores que conheço, pessoalmente ou através das redes sociais. E poesia poesia é um campo ainda mais pedregoso para a crítica do que o é a narrativa. Mas vamos tentar. Por enquanto, é isto.
Sem dúvida leitores há que, sem compromisso com a crítica, mas dotados de vasto repertório e referenciais teóricos, fazem da primeira ou mesmo das várias releituras um tipo de fruição especial, cujo prazer reside justamente em travar com a obra a experiência de buscar nela, conscientemente, elementos que enriqueçam sua percepção do belo. Assim é que, entre o crítico, o leitor crítico e o leitor mais desinteressado, que busca da obra apenas o seu primeiro plano, existe um largo espectro de leitores, e que ser reune sob o singelo nome de público, de tal modo que além das várias correntes e tendências estéticas, consolidadas ou em formação, há que se considerar o público tomado justamente na dimensão e na intangibilidade do espectro que o forma.
V
Finalizando, porque uma obra literária pode ou não dirigir-se ao mais amplo espectro do público, a função crítica deve também acompanhá-la. Esta é, no meu modo de ver, uma forma possível para resolver o problema que surge quando há manifesta assimetria entre o que propõe a obra e a expectativa dos públicos, entre estes a crítica. Exemplificando: há uma diferença de propostas muito relevantes entre uma narrativa de um autor mediano e uma narrativa de um Graciliano Ramos. Talvez o primeiro se proponha a contar um boa estória, com um bom enredo e personagens bem construidos e verossímeis. Enquanto as obras de Graciliano demonstram, por si só, que ele não quer apenas contar uma estória, mas que a estória conte-se por si mesma, de tal forma que ele atinge tanto o público que busca apenas a estória, o primeiro plano, como também, e neste caso principalmente se dirige aqueles leitores atentos às outras dimensões da narrativa.
Bem, finalizei e usei como exemplo a narrativa, mas quero avisar que o foco de minhas reflexões críticas será a poesia de autores que conheço, pessoalmente ou através das redes sociais. E poesia poesia é um campo ainda mais pedregoso para a crítica do que o é a narrativa. Mas vamos tentar. Por enquanto, é isto.
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