Cito este exemplo, para reafirmar que, se por um lado, a análise crítica transita entre dois polos: um que irradia os elementos que expressam a representação subjetiva do autor sob determinado tema; e outro que vincula aquela representação subjetiva a certos elementos objetivos (coletivos e às vezes universais, sejam estes meramente formais, estéticos, ou de conteúdo); por outro lado, é certo também que, nem todo autor está a todo tempo consciente destas vinculações, e a meu ver os poetas cultores da linguagem estão mais próximos de controlar esta variável em seu ofício. Todavia, é a obra que constitui e revela tais vínculos e elementos. As relações que a análise estabelece devem partir do texto, e devem manter-se nele; isto é, o texto é sempre um ente auto referenciado. O que o texto da obra não sustenta é puro achismo e fará rir aos mais céticos, como os comentários jocosos de Tom Jobim fizeram rir a tantos à custa de uma crítica sem estofo. Feitas estas observações preliminares, vamos ao ensaio, esperando nós, que Edvaldo Santana não se ria ao ler estas linhas..
Variante
Atalho da Penha de senha nenhuma
Das casas pequenas se viam centenas
De sonhos profundos
lagos rasos e fundos
Reparo na linha desvio de rotina
As trilhas caipiras servindo as meninas
De sonhos profundos
lagos rasos e fundos
No Rio São Francisco navega o vapor
Que navegou no Mississipi
O Rio São Francisco deságua sua dor no Tietê
Variante da Estação do Norte
De seu Joaquim da Luz
Se eu pudesse aproximava os tempos
Adonirava o blues
Edvaldo Santana
Quando pela primeira vez ouvi Variante, de Edvaldo Santana, fiquei impressionado. Me emocionou aquela canção tão cheia de elementos poéticos que remetiam a aspectos históricos de lugares próximos tanto quanto distantes, e que no meu caso em particular referiam a vínculos afetivos entre as origens nordestinas de minha família e uma naturalidade paulistanamente difusa, característica da cidade onde nasci e tenho toda a vida vivido. Variante continua a me emocionar sempre que a ouço envolvido no devido silêncio e no contexto das reflexões nostálgicas de dores imemoriais, legado comum do processo civilizatório que inaugurou a era industrial em qualquer canto do mundo e que está gravado no dna da nossa história operária.
Abro aqui um primeiro parênteses para confidenciar que das interpretações que ouvi/presenciei, todas elas viscerais, a mais absurdamente visceral foi aquela que Edvaldo apresentou no bar do Vlad, se a memória não me falha, num evento organizado para levantar fundos para um dos amigos com sérios problemas de saúde, ou como parte dos eventos de comemoração aos 30 anos do MPA, talvez as duas coisas juntas, não me lembro com precisão. Foi uma apresentação incrível, memorável mesmo. Durante os acordes da introdução, ele contou-nos sua inspiração para a música: a homenagem ao seu pai, seu Félix, e ao irmão falecido durante a viagem retirante pelo São Francisco. O próprio Edvaldo emocionou-se demais e a platéia, comovida com a música, com aquela monumental interpretação e com a emoção do cantor e compositor, comoveu-se também e aplaudiu de pé, entusiástica, demorada e merecidamente ao grande artista. Variante, é um clássico da música brasileira, não tenho dúvidas disso, como também nunca duvidei de que escreveria sobre ela, mesmo sabendo a tremenda responsabilidade que isto implica quando se trata da obra deste artista vigoroso que mesmo consciente de que "arte é produto" no sistema de mundo-coisas que vivemos, não transige em relação à qualidade e marca próprias.
Letra de música é poesia?
Creio que seja pertinente aproveitar o pretexto da análise de Variante para tratar uma questão razoavelmente recorrente para aqueles que se envolvem com a análise crítica de textos literários, que é a de como classificar, em termos de gênero, as letras de música.
Há correntes para todos os gostos, desde aquelas que entendem que letra de música é um gênero à parte, até os que radicalmente consideram que toda letra de música é poema. No meio, estão os que entendem que letras de música são textos que se valem de elementos poéticos, mas não são poesia. Uma peça de publicidade pode ter elementos poéticos suficientes para encantar e emocionar o seu público, pode trabalhar uma metáfora, mas ainda não é poesia. Não obstante, algumas letras de músicas são definitivamente poemas. Me posiciono no grupo intermediário e trago comigo uma definição simples: se o texto sobrevive sem a música é poema. Naturalmente, estão fora da discussão os que já nascem poemas e acabam musicados.
Um bom artigo sobre esta questão é o escrito por Antonio Miranda (http://www.antoniomiranda.com.br/editorial/letra_d_musica.html) que ao discutir a mesma questão e se propondo a respondê-la termina por indagar-se: "afinal, o que é mesmo poesia?". Isto exemplifica que a rigor esta discussão só interessa mesmo aos estudiosos, passando ao largo das preocupações do público. Como estudioso auto didata, poeta e chato, me detenho sobre a questão e a meu ver, no caso específico, Variante não é simples letra de música, é poema. E digo mais: confesso que a música Variante mudou um pouco o meu conceito distintivo entre letra de música e poesia, porque embora um certo sentimento de nostalgia e revel resignação possam ser captados na leitura do poema, é inegável que a melodia, os arranjos, a voz, a interpretação do autor elevam aqueles sentimentos às alturas, amplificando os sentidos do poema.
Do ponto de vista do tema... :( vai ser chato para quem nunca gostou de análise sintática... rs rs rs...:)
Em uma primeira leitura, a temática de Variante parece ser a "do estrangeiro em sua própria terra". Mas isso não se demonstra nos primeiros versos. Ao contrário, os primeiros versos descrevem um cenário meio bucólico, quase interioriano, descrito por um narrador que tem intimidade com aquela paisagem. Alguém que conhece os caminhos, os atalhos e não precisa de palavras de passe, de segredos, de senhas, para transitar por ali:
Atalho da Penha de senha nenhuma
Das casas pequenas se viam centenas
de sonhos profundos
lagos rasos e fundos
Num sentido e intepretação literais, temos no texto uma paisagem onde as casas são pequenas. Casas de onde se podem mirar centenas de sonhos profundos. Nesta linha interpretativa, sonhos profundos são o objeto visto a partir das casas pequenas. Na longínqua aula de análise sintática do meu saudoso professor Luis: "quem vê, vê alguma coisa...". Nesta situação, centenas se refere aos sonhos profundos. São centenas de sonhos profundos sendo vistos a partir de casas pequenas. O verso seguinte, lagos rasos e fundos, parecem funcionar como um aposto de sonhos, dando-lhes duas qualidades tanto simultâneas quanto opostas: os sonhos profundos são lagos rasos, os sonhos profundos são lagos fundos. Como são centenas de sonhos, cada um pode não ter individualmente a dupla qualidade, pode ser que uns sonhos sejam lagos rasos, outros sejam lagos profundos. O que importa aqui, para além da beleza da metáfora e da antítese, é que tanto metáfora quanto antítese se alinham com o título variante: o sonho profundo pode seguir uma linha caracterizadora de ser como um lago raso, ou seguir por outra variante: e ser um lago fundo. Esta construção linguística densa e a carga semântica destes versos é rica pois plena de sentidos vários, variantes.
Assim, anoto que para esta primeira estrofe temos uma primeira linha de interpretação revelada pela análise do texto. Nesta linha, a construção imagética do poema nos mostra um cenário que não chega a ser rural, mas que não se mostra claramente urbano. O atalho da penha alude, sem afirmá-lo, a um caminho mais próximo de uma trilha do que de um percurso urbano. As casas pequenas ajudam a sinalizar para uma paisagem bucólica, mais humildes do que grandiosas, mas também não o afirmam taxativamente. Nada impede que as casas sejam pequenas em decorrência de estarem sendo observadas à considerável distância.. Desta casas pequenas se viam centenas de sonhos profundos. Então temos uma cena, ou uma tomada. Melhor, temos a fotografia. A cena ainda não está descrita. O fato de o verbo ver estar no passado ( se viam centenas) não implica necessariamente que a "narrativa" esteja no tempo pretérito. E parece mesmo que a narrativa que descreve o cenário está no presente enquanto as casas pequenas, ao serem percebidas invocam certa lembrança de se ter visto, da perspectiva delas, centenas de sonhos profundos.
É de se reparar que a estrofação dada pelo autor importa uma outra variação: das casas pequenas se viam centenas, isto é centenas de casas do tipo pequenas (pois a ausência de pontuação produz tal ambiguidade).
Esta variante interpretativa, se trilhada, nos leva, por questão lógica, a considerar que neste caso, centenas são as casas do tipo pequena e sonhos profundos são equivalentes de casas. Os sonhos são ainda "vistos", mas de forma indireta, na sua equivalência com casas.
Temos assim, no quadro visual fornecido pelo poema uma primeira tomada:
Um atalho, que se localiza, ou que tem como destino, um lugar chamado Penha, com suas casas pequenas de onde se pode avistar centenas de sonhos profundos, lagos rasos e fundos.
assim: casas pequenas --> sonhos profundos --> lagos rasos e fundos
Esta tomada tem a sua variante, na qual o que se pode ver são as centenas de casas de tipo pequenas e que são sinônimas de sonhos profundos e de lagos rasos e fundos.
portanto assim: casas pequenas = sonhos profundos = lagos rasos e fundos.
Tanto em uma como em outra linha de interpretação, lagos rasos e fundos referem-se a sonhos profundos, como equivalentes de sonhos profundos, além de ostentarem duplo sentido: como componente da paisagem descrita, e como equivalente metafórico de sonhos profundos. Assim, lagos rasos e fundos é também elemento que possui um significado "variante".
Reparo na linha desvio de rotina
As trilhas caipiras servindo as meninas
De sonhos profundos
lagos rasos e fundos
Em seguida o foco da descrição se move, como uma câmera para informar que há uma linha, e que nesta linha há um reparo e um desvio de rotina:
onde a palavra reparo adquire dois significados:
reparo = conserto; substantivo.
reparo = observo, percebo; verbo.
Então temos uma nova variante:
Se o reparo é conserto, o desvio de rotina é um desvio costumeiro, que se adota para manter o funcionamento da linha enquanto se executa o reparo. E pode ser também um desvio de rotina para os que são afetados pelo reparo na linha. Vê-se novamente uma variação no sentido da frase devidamente autorizada por ela mesma.
Na outra variante: (eu) reparo na linha, desvio de rotina ( que pode ser o desvio rotineiramente adotado para manter a linha em funcionamento; ou o ato de reparar acaba por causar um desvio da/na rotina daquele que repara, novamente o fator variante está presente.
Na mesma cena, em uma nova tomada, as trilhas caipiras servem as meninas de sonhos profundos. A construção gramatical não nos autoriza definitivamente a atribuir a que se refere a locução "de sonhos profundos", que pode ser objeto direto de servir (quem serve, serve alguma coisa) : as trilhas caipiras servindo de sonhos profundos às meninas. E na outra variante: de sonhos profundos pode ser simplesmente locução adjetiva (predicativo do objeto) de meninas, trata-se de meninas de sonhos profundos. Seguindo a dualidade semântica, lagos rasos e fundos vão se referir: a) aos sonhos profundos ( ...de sonhos profundos: lagos rasos e fundos ); e b) lagos rasos e fundos podem ser apenas um elemento da paisagem, que se compõe assim de: atalho, linha (ferroviária), trilhas e lagos .
Mas alguem poderia dizer: que importa o que o autor disse? importa é a beleza! Pois é exatamente o que estou dizendo: não importa muito o que o autor disse, mas como ( com quanta riqueza e beleza estética) ele o está dizendo. Quer dizer: Não se está buscando o conteúdo pelo conteúdo, mas o conteúdo pela forma, isto é: o conteúdo estético. E nisto, a meu ver, o poema é rico e faz de Variante, para além da música, uma obra poética magnífica.
Estrangeiro em sua própria terra
A estrofe seguinte muda completamente a cena, ao introduzir no poema um novo e inusitado elemento: o rio São Francisco e o vapor que por ele navega.
No Rio São Francisco navega o vapor
O inusitado fica por conta de que não se trata de um vapor qualquer, mas um vapor...
que navegou no Mississipi
E assim, com esta construção primorosa o poeta aproxima dois lugares distantes entre si, de países distantes entre si e esta aproximação se dá pela figura do vapor, que representa chegada ou partida, no Brasil, nos Estados Unidos ou em qualquer outro lugar. Trata-se de um elemento do imaginário universal.
O vapor que navega o São Francisco é o mesmo vapor que navegou no Mississipi. São Francisco e Mississipi são rios de grande importância econômica e representativos de excepcional riqueza cultural em seus respectivos países. Ao mesmo tempo, entretanto, a importância econômica destas regiões banhadas pelos rios se dá à custa de uma brutal exploração do homem pelo homem. A história de uma e outra região é também uma história de dor e sofrimentos. ( isto não está no poema, mas o que nos autoriza a fazer tal aproximação é que o vapor que navegou lá, navega agora aqui... e mais...
o rio São Francisco deságua sua dor no Tietê
o rio São Francisco deságua metaforicamente em São Paulo, a locomotiva do processo de industrialização brasileiro e que, em algum momento, tem a mão de obra barata importada do nordeste, via retirantes, como um dos fundamentos-base do modelo de expansão econômica da cidade, do estado e de toda a região sudeste. Um modelo que, se por um lado, acolhe os retirantes em sua saga, por outro não os livra da dor, aquela dor severina, que vem desde a sua origem social e que agora grita na solidão de ser retirante, migrante, estrangeiro em sua própria terra.
Se estamos aqui a nos socorrer de informações retiradas do contexto histórico para associar o vapor do Mississipi ao vapor do São Francisco e associar também certas características comuns entre ambos: que são elementos geográficos, econômicos e culturais de importância singular para cada país, e que ambos carregam as dores dos povos que no seu entorno vivem, etc... tal associação só é possível porque o poeta já aproximou os dois rios, os dois povos, os dois sofreres, e sobretudo as duas culturas, pois ambos são berços de cultura dos mais significativos.
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| Rede ferroviária - linha Santos-Jundiaí e Variante |
De seu Joaquim da Luz
Se eu pudesse aproximava os tempos
Adonirava o blues
Para fechar o poema e deixar a todos nós embasbacados com o poder da metáfora, da síntese, o poema reune todos os elementos, antes dispersos ou insinuados: A estação do norte é antigo nome da estação do Bras, que junto com a estação da Luz formavam o complexo de chegada/partida dos migrantes de todo o país que aportavam em São Paulo. A linha variante, interligava justamente o extremo leste da cidade ao Brás. Transporte ferroviário que muitos migrantes nordestinos utilizavam pela primeira vez ao desembarcarem em São Paulo com destino aos bairros operários da zona leste, como São Miguel e Itaim. A mesma linha variante que seria utilizada depois, pela maioria deles para deslocarem-se, no dia a dia, do bairro dormitório até os locais de trabalho. Vindo de Calmon Viana, passando por Manoel Feio, São Miguel, Ermelino, Engº Goulart, Engº Gualberto, que era a estação da Penha, a linha ferroviária margeava o Tietê, com sua várzea repleta de braços de rio e de lagoas, rasas e fundas, armadilhas para aqueles que não sabiam os segredos, as senhas; perigosas para os meninos que se aventuravam em mergulhos, muitas vezes sem volta. Claro está que aquele que não tenha vivido por estas plagas não poderia recuperar estes sentimentos a partir do poema, ou da música, cito-os apenas à guisa de registro, mais para contextualizar o caleidoscópio de experiências que repousam submersas e dos quais se vale o poeta para construir suas sínteses e antíteses, suas metáforas e imagens. O fato é que o poema vai muito além das possíveis experiências vividas por este ou aquele leitor. A beleza e a força do poema reside na sua capacidade de deslocar o nosso sentido ao dizer que se pudesse aproximava os tempos, quando em verdade, ele já os aproximou na figura de um vapor que navegou no Mississipi e que agora navega no São Fransisco. Ele já aproximou as dores de quem navegava no Mississipi e que agora navega sua dor e a deságua no Tietê, na forma de gente retirada de sua terra, da sua gente, da sua origem, das suas raízes. Gente retirada de sua cultura. Por isso, se pudesse aproximava os tempos musicais e tornaria o blues em um samba à moda de Adoniram, que imortalizou o trem das onze. Assim, o poeta não pode aproximar os tempos da música, não pode adonirar o blues, não pode unificar a dor dos povos operários, sertanejos, proletários, embora já o tenha feito em seus sentidos vários.
Gilberto Braz
Ouça Variante aqui.
Variante-> Linha ferroviária que iniciando em Calmon Vianna, passa por São Miguel, Itaim e termina na Estação do Bras.
Penha -> Bairro paulistano de formação histórica originariamente conhecido por Freguesia da Penha, era local de passagem e estadia das comitivas do imperador D. Pedro
São Francisco -> rio brasileiro localizado no região nordeste com nascente no Minas Gerais e desaguando no.... sua importância econômica e cultural é tamanha que figura como elemento de destaque na cultura nacional, sendo conhecido por "Velho Chico" e cantado por artistas consagrados ou mencionados em contos, romances, poemas, filmes, obras de arte, etc...
Mississipi -> rio dos Estados Unidos que possui importância econômica e histórica. A região próxima ao Delta do Mississipi é o berço do blues.
Tietê -> importante rio paulista presente na historiografia brasileira sobretudo em função das rotas de entradas e bandeiras.
Estação do Norte -> Era o nome original da Estação Roosevelt que posteriormente veio a se chamar Estação do Bras.
