domingo, 7 de dezembro de 2014

Muitos caminhos, um método

I.
Neste espaço farei reflexões sobre obras literárias de alguns autores, os quais tenho lido nos últimos meses. Antes de mais nada faz-se necessário distinguir entre crítica literária e teoria literária, de maneira que se tenha claro o escopo de minhas análises, seus limites e  propósitos.

Teoria Literária é ciência, e como tal busca encontrar  padrões que definam algum modelo reconhecível. Não está, ou não deveria estar, interessada em elaborar juízos de valor: um texto,  "considerado ruim", do ponto de vista da crítica, pode ser objeto de estudo, tanto quanto um clássico, embora não faça muito sentido perder-se tempo com o que não vai permanecer. Ou dito de  forma menos rude: a Teoria Literária se ocupa mais do que permaneceu ou do que tende a permanecer, pela razão simples de que,  sendo teoria da Literatura, precisa de certa estabilidade no objeto que estuda,  de um distanciamento que, muitas vezes, só  o tempo provê de modo eficaz e desinteressado.

Embora a neutralidade científica seja apenas uma tese por provar-se, consideremos que ela seja ideologicamente possível e socialmente desejável. E que no caso da Teoria da Literatura uma das formas de expressão de dita neutralidade dê-se pela ausência de julgamento moral ou ideológico; digamos que ela se atenha à descrição e tentativa de explicação do fenômeno estético. É o velho e batido "importa menos o que o autor disse, e mais como ele o disse".  Talvez possamos falar de uma investigação teleológica, algo do tipo "o que o autor quis ao dizer algo".  Se quisermos adotar o pressuposto de que não é possível a neutralidade, então tenhamos em mente que a Teoria da Literatura quando julga, o faz  utilizando-se das espécies de juízo descritos por Kant, quais sejam: o juízo determinante  e o juízo reflexionante: o primeiro buscando em modelos universais os padrões que determinam a ação em particular; o segundo, partindo da representação particular, dada pela obra,  busca  representação universal que a reflita. Ressalte-se que, seja de uma ou de outra maneira, o que fundamenta o juízo deve estar contido na obra. Ou, nos termos de mais um chavão da teoria: a obra deve dizer o que ela diz. É por estas águas dificeis que navega o barco da Teoria Literária, entre o oceano de objetividades ( o universal ) e o  rio de subjetividade ( o particular ) representado na obra de arte. Separar e identificar estas águas e o que elas expressam em sua (pro)fusão, nisto reside o fascínio da Teoria da Literatura. É justamente por isso que ela se debruça, quase sempre, sobre o conjunto de uma obra, ou sobre a obra específica num contexto conjuntural de uma época, porque precisa encontrar padrões e elementos da objetividade ( universais ) para neles explicar os padrões subjetivos representativos de um autor ou obra, e assim, por ciência, compartimenta, agrupa e classifica as obras,  e por fim nomeia as escolas literárias.

Entrementes, com ou sem fundamentos filosóficos ou científicos, o Homem é um animal que reúne dados, avalia e julga o tempo todo. E não seria diferente com as obras literárias e seus autores, venham elas a permanecer ou não. De maneira que tal  espaço não poderia ficar vago. E é aqui que entra a crítica literária. Portanto, embora alguns autores assim não o vejam,  a crítica literária não é um capricho do crítico, mas antes uma resposta da sociedade a certa necessidade de imprimir qualificativos, de opinar, de construir um conceito inicial com algum fundamento de validade até que a ciência o confirme, ou negue-o. Na nossa cultura ocidentalizada e de cânones, a crítica literária é quase a sala de espera da Teoria Literária.


II

Uma crítica, queira ou não o crítico explicitá-lo, possui um aspecto de valoração, na medida que não apenas  descreve os traços característicos de uma obra, o arsenal de recursos técnicos utilizados pelo autor, mas também busca sinalizar a função destes recursos na composição do trabalho em análise, examinando a arquitetura da obra literária, e como a forma expressa, ou não, o seu conteúdo;  como o autor utiliza a forma para cumprir com suas ( e quais são as suas ) intenções (neste ponto, a crítica se aproxima bastante da Teoria, porque em geral faz uso dos instrumentos desenvolvidos pela Teoria).

De fato, por mais que esteja munido de instrumentos de análise técnica fornecidos em geral pela Teoria Literária, a crítica continua sendo opinião;  e por isso, impregnada dos valores estéticos e, porque não, ideológicos, que o crítico carrega em si. A crítica é pois, um olhar imediato sobre uma obra em particular e não tem compromisso com uma verdade científica, sequer com qualquer historicidade, embora possa fazer uso delas a seu critério. Ela emite um juizo que não é nem determinante nem reflexionante, é um juízo segundo o crítico e que, muitas vezes pode estar permeado das conveniências do mercado.  Por isso os autores, ou o público, para refutar a crítica não precisam elaborar nenhuma nova teoria, basta repelí-la apondo um simples e rotundo "não concordo!" sobre ela.

Bem, falando assim, parece que as idéias até aqui expostas estão em contradição: a crítica é necessária, mas ao mesmo tempo pode ser repelida sem qualquer necessidade de elaboração de teoria ou mesmo de uma réplica. Isto é: a crítica assim repelida torna-se desnecessária. Mas é uma contradição apenas aparente. Conquanto um texto literário pode não ter nenhum valor estético aos olhos do crítico, sua crítica pode ter valor algum aos olhos do público. Todavia, da mesma forma que o cientista busca a neutralidade, ainda que  como ideal; o crítico busca a credibilidade. A crítica necessária é pois aquela dotada da necessária credibilidade. É notar que ambos, autor e crítico estão, em tese,  à procura da aprovação do público à medida que ambos escrevem para o público. Neste sentido, autor e crítico; obra e crítica, se igualam, pois ambos serão julgados pelo leitor, aquele que tem a palavra final.



III

Ao analisar como o autor construiu o seu trabalho artístico, como exerceu o seu ofício,  não resta dúvida que, como já dito,  uma carga de valoração se aplica. Não aquela valoração mercantilizada das críticas de certos veículos mediáticos, que se arrogam a presunção de atribuir rótulos de "ótimo", "bom" ou "ruim" conforme assim o expressem o seu departamento comercial e sua carteira publicitária; nem tampouco a valoração dada por uma espécie de crítica academicista que, sustentando-se na ( e fazendo um uso inadequado da) teoria da literatura,  tenta encaixar uma obra em seus padrões e modelos axiomáticos para então proclamar: esta tem valor, porque se encaixa no modelo A, aquela não tem valor porque não se enquadra em nenhum modelo válido,. Não se trata de negar a Teoria Literária, mas apenas de não confundir as coisas.

Um bom crítico poderá sê-lo com base apenas na sua cultura geral, no seu conhecimento empírico, na "sensibilidade" para apreender o contexto em que a obra se insere e na sua capacidade de perceber  polifonias e polissemias,  sem no entanto expressá-las por seus "nomes técnicos"  em seu texto crítico. Enfim, um bom crítico entende a obra no diálogo que ela trava com o seu tempo.  Da mesma forma que, reconhecer recursos da técnica e da estilística, descrevê-los e nomeá-los não garante uma boa crítica. Sendo assim, exercitar a crítica não é algo que se possa fazer com tranquilidade. É uma situação complexa, de risco para aqueles que a tratam com seriedade.

A função crítica tem dupla interface: se por um lado, dialoga com a obra, percorrendo-a em busca de seus contornos e conteúdos; por outro lado deve conversar com seu tempo, na tentativa de buscar os balizamentos mais adequados para a compreensão do trabalho alheio  sobre o qual se debruça, a fim de não incorrer no risco de ser injusta, julgando de um modo aquilo que se encaixa nos gostos e preferências do crítico, e de outro modo o que daqueles  gostos e preferências se distancia. Focar no aspecto descritivo, pode ajudar a evitar o risco, mas o custo pode ser o de haver escrito uma  resenha puramente descritiva, não uma crítica. Assim vamos, antes da crítica, delineando um "modelo" crítico que apresente um mínimo de pressupostos conceituais, extraídos da Teoria Literária ou não, que, mesmo diante de gostos e preferências particulares,  saiba dialogar com as diversas correntes estéticas e assim entender  como o publico ( sim, o público e somente ele)  legitima aquelas tendências para o seu bem fruir.



IV

Há autores que não se importam com a crítica, há aqueles que se importam apenas com o que dizem alguns críticos que eles reputam capazes de exercer a crítica com a necessária competência;  outros há que não lêem críticas em absoluto, e há ainda aqueles que lêem apenas as críticas dos críticos que lhes são favoráveis. São todas estas posições válidas, porque a obra não necessita da mediação da crítica para estabelecer uma relação com o leitor, muito embora, em alguns casos, tal mediação exista, porque há leitores que conferem ao crítico credibilidade suficiente para orientar-lhe as leituras.

Embora o autor nem sempre peça aos críticos que lhes critiquem a obra,  o fato de ela ser destinada ao público já autoriza o crítico a colocar seu olhar sobre ela. O crítico é antes de tudo um leitor e como leitor possui também a sua impressão, boa ou má, sobre o trabalho que aprecia. Todavia, duas características fundamentais distinguem a leitura do crítico da leitura do leitor comum: a primeira, presume-se , o crítico lê a obra e a compara tendo como guia certos padrões da objetividade que ele elegeu como preferenciais. O crítico toma a obra na perspectiva de um certo  repertório já  percorrido; enquanto o leitor, ainda que tenha um repertório mais rico, toma a leitura da obra guiado pela subjetividade que o autor lhe imprime. Neste sentido, enquanto o crítico analisa, o leitor frui; enquanto o crítico ( como o teórico ) busca o universal que envolve a obra; o leitor se aprofunda no particular, envolvido por ela. A segunda, que decorre da primeira, é que o juizo do crítico, não se constrói sem coerente fundamentação, enquanto o juizo do leitor, por basear-se na relação de subjetividades entre a obra e a sua percepção do belo, funda-se basicamente na experiência de prazer.

 Sem dúvida leitores há que, sem compromisso com a crítica, mas dotados de vasto repertório e referenciais teóricos, fazem da primeira ou mesmo das várias releituras um tipo de fruição especial, cujo prazer reside justamente em travar com a obra a experiência de buscar nela, conscientemente,   elementos que enriqueçam sua percepção do belo. Assim é que, entre o crítico, o leitor crítico e o leitor mais desinteressado, que busca da obra apenas o seu primeiro plano, existe um largo espectro de leitores, e que ser reune sob o singelo nome de público, de tal modo que além das várias correntes e tendências estéticas, consolidadas ou em formação, há que se considerar o público tomado justamente na dimensão e na intangibilidade do espectro que o forma.



 Finalizando, porque uma obra literária pode ou não dirigir-se ao mais amplo espectro do público, a função crítica deve também acompanhá-la. Esta é, no meu modo de ver, uma forma possível para resolver o problema que surge quando há manifesta assimetria  entre o que propõe a obra e a expectativa dos públicos, entre estes  a crítica. Exemplificando: há uma diferença de propostas muito relevantes entre uma narrativa de um autor mediano e uma narrativa de um Graciliano Ramos. Talvez o primeiro se proponha a contar um boa estória, com um bom enredo e personagens bem construidos e verossímeis. Enquanto as obras de Graciliano demonstram, por si só, que ele não quer apenas contar uma estória, mas que a estória conte-se por si mesma, de tal forma que ele atinge tanto o público que busca apenas a estória, o primeiro plano, como também, e neste caso principalmente se dirige aqueles leitores atentos às outras dimensões da narrativa.

Bem, finalizei e usei como exemplo a narrativa, mas quero avisar que o foco de minhas reflexões críticas será a poesia de autores que conheço, pessoalmente ou através das redes sociais. E poesia poesia é um campo ainda mais pedregoso para a crítica do que o é a narrativa. Mas vamos tentar. Por enquanto, é isto.